

A 236ª e a 237ª camisas do nosso site fogem de uma das poucas diretrizes que tento seguir: nenhuma delas pertence a um clube federado, tampouco a um time amador.
Mas representam uma geração de moleques do início dos anos 90 e sua experiência em torno do futebol via a nossa escola: a ETE Lauro Gomes.

Eu disse “moleques” porque dos pouco mais de 40 estudantes na classe 1J do curso de Técnico em Eletrônica, 35 eram meninos, então o futebol naquele momento era basicamente masculino.
Que bom que as coisas estão em mudança constante e cada vez mais vemos as meninas assumindo protagonismo também no futebol.
E antes de mais nada, para quem não é do ABC, vale explicar o que era a tal ETE Lauro Gomes e o que ela representou para os milhares de estudantes que passaram por ali.

A primeira coisa importante a se dizer é que a ETE, Escola Técnica Estadual nasceu como ETI, Escola Técnica Industrial.

A primeira aula aconteceu em 8 de março de 1965 e foi para 74 alunos do curso de “Máquinas e motores” na então ETISBEC, a Escola Técnica Industrial de São Bernardo do Campo, que anos depois ganharia um nome homenageando Lauro Gomes de Almeida, prefeito de São Bernardo do Campo em 1951.

A Escola foi construída na área de uma antiga fazenda pertencente a Enéas Queiroz Ferreira e seu objetivo era preparar a cidade e a região para a nova realidade que se construía com a chegada das indústrias, em especial as automotivas.

Aliás, mais do que escola técnica, pouca gente sabe, mas quando a Faculdade de Engenharia Industrial, a FEI, surgiu, ela tinha sua estrutura física lá na ETI, no que seria no futuro o bloco 5, dedicado aos cursos de eletrônica e eletroeletrônica.

A ETE teve apoio da Alemanha Ocidental e até de Israel fornecendo equipamentos para seus laboratórios.
Nos anos 80, a escola foi incorporada ao Centro Paula Souza, e oficialmente passou a se denominar ETE Lauro Gomes, mas a mudança de nome sofreu certa resistência e acabou só sendo assimilada mesmo nos anos 90.
Já no século XXI, ela passaria a ser denominada pelo Centro Paula Souza de ETEC Lauro Gomes.

Eu cheguei na ETE em 1992, com 14 anos, vindo de um pequeno colégio e lembro que me assustei com a mudança da rotina.
Primeiro pelo horário da escola: teria que estudar das 7h às 18hs, o que era bem puxado…
Além disso, as aulas não eram apenas em salas, mas em laboratórios que exigiam diferentes posturas e uniformes, o que dava uma dinâmica única para a escola.



Tínhamos aulas com super professores, esse abaixo é o Professor Issao Yamamoto, um dos maiores físicos do Brasil naquela época.
E que belo mullet eu já tinha hein?
Ali ao meu lado, Rogério Couto, o “peixe”, grande meio campista daqueles anos 90 e um dos responsáveis por termos ido a pé até a loja da Tocha Confecções na rua Marechal de São Bernardo onde encomendamos a camisa da 1J/2I.

Aqui, nossa turma em uma aula de física com “mestre Issao” em meio aos estudantes.

Tinha ainda o lance dos armários, que eram o nosso único espaço de individualidade dentro daquele ambiente. Se bem que mesmo ali, a gente tinha que dividi-lo com um outro estudante.
E como vc “não” pode ver, as máquinas fotográficas da época não ajudavam a fazer bons registros.
Acho que na foto estamos eu, Peixe, Ricardo “Nou” e embaixo “Montanha”, Carneirinho e Rodrigo “Para quedas” (espero que esse post chegue a eles).

O sistema de aprendizado também era bem diferente, com uma grade cheia de aulas vagas para serem usadas para estudar ou para jogar bola, tocar violão…
Era a gente que definia a nossa rotina.
E isso pra mim foi revolucionário e me ajudou a criar o equilíbrio entre liberdade e responsabilidade.
E se ainda não existia o facebook, a gente tinha o “carômetro” para conseguir identificar as pessoas (era maluco, um livro com fotos 3×4 e nomes de cada pessoa, separados por classe e que podia ser acessado fisicamente por qualquer aluno.
Essa era a 1J de 1992, que seria quase a mesma a se tornar a 2I em 1993:


Até a 8ª série eu nunca tive nenhum problema com as matérias da escola, mas estudar na ETE foi super puxado…
Lembro de quanta preocupação em fechar as contas das notas…

Outro ponto é que eu era um moleque e 14 anos e lembro que alguns dos amigos de escola tinha quase o dobro da minha idade. Isso porque a minha geração foi uma das primeiras em que a gente ia tão focado no ensino médio quanto no ensino técnico. Até então, a maioria dos estudantes eram operários da indústria que estavam ali preparando-se quase que exclusivamente para as suas demandas profissionais, e consequentemente eram mais velhos que aquela molecada que vinha da 8ª série.
Era mesmo muita maluquice…
O pessoal da ETE gostava de encrenca e por muitas vezes a confusão com outras escolas chegava a níveis exagerados.

E como explicar a paixão que a escola tinha por corridas de carrinho de rolimã?
Se bem me lembro, no ano em que entrei (1992) elas foram proibidas, mas voltaram a partir de 93 e chegou a ser notícia de jornal!

Pra você entender, ainda precisaria te falar sobre o mercado de vale almoço que existia lá dentro (vc comprava o vale mensal e depois revendia durante a semana gerando um mercado paralelo que fez com que muita gente ganhasse dinheiro nessa compra e revenda), tudo isso pra comer um bandeijão que na primeira semana te fazia muito mal, mas que depois te deixava viciado naquela comida!

E que tal um “X-salgado” (podia ser um pão com cozinha e maionese, ou até pão com esfiha) feitos na incrível lanchonete onde o chapeiro era o presidente da Mancha Verde do ABC? Também precisaria te falar sobre os trotes (nem sempre “divertidos”e com certa frequência indo além do necessário), sobre s crachás, o anfiteatro onde vi nada mais nada menos que Gianfrancisco Guarnieri… além dos professores inesquecíveis dos quais no mínimo preciso citar Homero Osvaldo Machado Nogueira (em memória), com aulas de literatura iniciandas em latim…

… e Renato Ribeiro Batista, petista roxo, dono de um emblemático fusca verde e professor de história que me fez aprender a pensar ao me dar zero em um trabalho que envolvia as revoltas brasileiras e Bertold Bretch (Infeliz é o povo que precisa de heróis)…

Não era fácil participar desse ecossistema, que em muitos pontos era mais adulto do que o ambiente universitário que eu conheceria anos depois.
No meu caso, o futebol foi essencial pra me integrar minimamente a tudo isso.
A ETE possuía uma estrutura de esportes bem interessante: 1 campo de futebol (era um terrão que chamávamos “campão”), 4 quadras descobertas, 1 ginásio poliesportivo coberto, sala de xadrez, além de ter suas pistas internas transformadas frequentemente em pistas de corrida pelos professores de Educação Física Léo e Castelo e também pista de corrida de carrinho de rolimã uma vez por ano.

O “Campão” era um sonho de consumo para os estudantes em geral.
Se bem me lembro ele era tão disputado que tinha um lance que alunos do primeiro ano (os “bichos”) não podiam frequentá-lo.
Essa foto abaixo já sou eu no 3º ano, jogando no gol pela 3E:


Além disso, existia forte rixa entre os cursos, principalmente entre “eletrônicos e mecânicos”.
Existiam ainda os “TN”, que cursavam Eletroeletrônica e acabavam meio que aliados aos eletrônicos por também estarem no bloco 5 e por fim o pessoal de PD, que no geral era um pessoal mais nerd, com uma concentração maior de meninas e que se envolviam menos nas encrencas internas.
Entre eletrônicos e mecânicos a coisa era no nível de torcida organizada mesmo chegando ao climax de tentativas de “invasão de bloco”.
Eu fazia Eletrônica e o orgulho da nossa turma era um bandeirão que tinha como personagem o Exterminador do futuro.
O grande marco dessa rivalidade era o campeonato interno, disputado apenas entre alunos do mesmo ano (1ºs anos contra 1ºs anos, 2ºs contra 2ºs e 3ºs contra terceiros), e tudo ali parecia meio “mítico”, tipo… eu era goleiro do time da 1J (com a camisa acima) e vivia sendo apoiado e/ou cobrado por caras do 2º e 3º anos que diziam que tinha sido 1J.
Esse era o clima da arquibancada do ginásio em dia de jogo:

Assim, lembro me que com a camisa do 1J fui goleiro do nosso time de futsal e de handball, em ambos tivemos boas campanhas mas não saímos com o título.
No ano seguinte, jogando pela 2I não me lembro de nenhum resultado…
Já com a camisa da 3E, lembro que por conta de muitas brigas, a direção da escola optou por mesclar as turmas e formar novas turmas para os terceiros anos, e acabei caindo numa classe com pessoas que eu não conhecia muito bem mas, vários bons atletas, assim fomos campeões de futebol de campo e… acho que também de handball..
E lembro que o amigo Orides fez grandes resultados no atletismo.
O título do terceiro ano, embora um sonho para todos os alunos da ETE foi um pouco menos divertido porque vivíamos um ano de tantas brigas que a direção preferiu que a final fosse disputada em um sábado pra evitar um caos, então até foi bastante gente, mas não houve a loucura que por 3 anos eu sonhei.
No time abaixo: Arlindo, Adalberto, eu, Urso (que se tronaria atleta de handball) e Orides. Agachados: “Pampers”, Mauricio, PD e Axé. (alguém confirma?).

Enfim…
Confesso que vivi alguns dos piores e melhores dias da minha vida ali dentro.
Álcool, medo e violência conviveram com aprendizado, lealdade e responsabilidade, fazendo daquele lugar talvez o melhor laboratório possível para a vida que seguiria a partir de 1994.
Tudo regado a muita amizade e irreverência…

Sem dúvidas, a combinação daquela idade mágica com tantas descobertas, mudanças e experiências fez com que esses três anos ficassem marcados para sempre na minha memória.
Pena que acabei ficando um pouco antissocial e participando de poucos reencontros…

E agora, mais de 30 anos depois, olhando para essas duas camisas, percebo que elas representam muito mais do que os times pelos quais joguei.
Representam os amigos que fiz, as histórias que vivemos, as vitórias que comemoramos e até as frustrações que, naquela época, pareciam tão importantes. Representam também uma versão de mim que ficou lá, entre os armários do bloco 5, as arquibancadas do ginásio e a terra do Campão.
Talvez seja por isso que eu guarde essas camisas com tanto carinho.
Porque, de alguma forma, elas me permitem reencontrar aquele moleque de 14 anos que entrou na ETE em 1992 sem fazer ideia do quanto aqueles três anos mudariam sua vida.
E se existe algo que aprendi colecionando camisas de futebol, é que algumas delas não precisam representar um clube para carregar uma história que merece ser contada.

