Já é quase setembro de 2020… Ainda sob efeito da pandemia do COVID 19, e tomando todos os cuidados mais que necessários, aproveitei o fim de semana e dei um pulo na cidade de Monte Mor, para conhecer e registrar o Estádio Municipal José Maria de Freitas Guimarães.
Vale lembrar que a área onde hoje fica a cidade era um local ocupado pelos índios Tupi-Guarani e muitos vestígios da época (como fragmentos de cerâmica e até uma urna funerária com cerca de 1000 anos de idade) foram encontrados em escavações nos sítios Tapajós e Rage Maluf, na década de 70. Após os índios serem dizimados pelos bandeirantes, o homem branco chegou, e usava a região de parada dos que passavam por ali e logo as primeiras famílias se estabeleceram ali dando origem a núcleos que se tornaram Freguesia e, em 1871 elevada à Vila de Monte Mor. No século seguinte, a cidade veria nascer o seu time de futebol, o Esporte Clube Monte Mor!
Destaque para a Cruz Orbicular (Cruz Templária) em seu distintivo, que era usada pelos Templários portugueses e pela Ordem de Cristo. O Esporte Clube Monte Mor mandava seus jogos no Estádio Municipal José Maria de Freitas Guimarães e lá fomos nós registrar mais um estádio, dessa vez tendo o “Tio” Lúcio como guia!
O rubronegro EC Monte Mor foi fundado em 2 de maio de 1957 e disputou a Quinta Divisão em 1978 e 1979. Veja a campanha de 1978:
O amigo e leitor do blog José Alves Borges, treinador de futebol profissional na Ásia há mais de 20 anos, enviou uma foto do time de 1978:
Aqui, a campanha de 1979:
O EC Monte Mor também chegou a jogar a série A3 em 1980 e 1982. Esse foi o time de 1980:
Da esquerda para direita, em pé: Helio Jalbut (Técnico), goleiro reserva, Renatão, Chiquinho, Edson, Caetano, Zé Luiz, Louca (Goleiro), Alemão e Joãozinho Jalbut (Presidente). Agachados: Dimas, Mimi, ??, Ademir, Celso, José Antonio, Benê e João.
Graças ao amigo Jamil Lisboa, conseguimos algumas fotos do time dessa época.
As fotos são de um amigo dele, o Adhemar Alves, e fica aqui nosso agradecimento por poder dividir com outros apaixonados pelo futebol!
Mais do que algumas fotos quaisquer, elas registraram um dia na vida do EC Monte Mor:
Especificamente, do último jogo da fase classificatória de 1980, no dia 28 de setembro, contra o Cruzeiro do Vale do Paraíba (veja aqui nossa visita ao estádio deles!). O Cruzeiro dependia do resultado deste jogo para se classificar e não a toa, a torcida do time do Vale do Paraíba trouxe nada menos que 6 ônibus para Monte Mor!!!
Estádio lotado e com direito a transmissão pela Rádio de Cruzeiro e transmitida, com um telão colocado no centro da cidade de Cruzeiro, pela Tv de São José dos Campos!
Embora a data nas fotos seja de 1982, esse jogo foi mesmo pela A3 de 1980, uma vez que em 81, o EC Monte Mor não disputou o campeonato e em 1982, o Cruzeiro estava na série A2, justamente por ter sido campeão do ano anterior!
O placar final foi 2×2.
O centroavante Celso marcou um dos gols do time da casa:
Tem até o lance do gol dele:
E não é que até foto do trio de arbitragem (modelo padrão…) apareceu? Árbitro Antonio de Pádua Sales!
Mas a festa teve um final um pouco triste para a torcida local, já que no ano seguinte o EC Monte Mor não disputaria campeonato algum, retornando apenas em 1982 para fazer sua despedida oficial da série A3 e do futebol profissional… Ao menos, seu estádio segue por lá!
Aliás, pelo que pudemos ver, o Estádio Municipal “José Maria de Freitas Guimarães” está passando por reformas…
Aqui o gol do lado esquerdo, para quem está acomodado na arquibancada coberta.
O meio campo:
E o gol da direita:
O sistema de iluminação deixou de funcionar há alguns anos, devido ao furto dos cabos de energia.
O amigo Stuchi ainda nos passou essa foto de uma vista aérea do Estádio:
O convênio com o Governo Federal liberou cerca de R$ 360 mil para obras de revitalização do Estádio, mas pelo que eu entendi esse acordo é antigo e deveria recuperar o sistema de iluminação, os vestiários, alambrados e outras dependências do estádio.
Que tal uma olhada no estádio como um todo?
Ah, e antes que você me pergunte como eu consegui as fotos e vídeos, em uma época em que o estádio está fechado, fica aí o nosso segredo:
Mas também busquei outras fotos no Facebook da Prefeitura, até pra ter uma vista da arquibancada, e olha aí o que achamos:
Esse é um time amador de muita força na cidade, o Santa Cruz:
E ainda achei alguns lance de partidas amistosos:
E, principalmente, uma visão da arquibancada coberta:
É isso aí…. Mais uma linda história do futebol paulista…
Assista e perceba que o “torcedor” virou um personagem tão estranho quanto qualquer outra subcultura…
É tipo o “punk” do bairro.
Minoria na vizinhança, sua cultura não faz sentido aos demais moradores, que sequer lembravam que tinha um futebol pra voltar
No filme, o futebol voltou e são 2 apartamentos na rua toda (de uma grande cidade, cheia de prédios) que parecem comemorar.
O resto das pessoas está lá… tricotando, trocando lâmpadas, brincando de chef na cozinha, lendo, tocando violão, pintando, cagando, estudando, transando, fazendo faxina, vendo netflix, ouvindo música, jogando um game, trabalhando em pleno fim de semana, dormindo…
O futebol brasileiro se tornou uma sub cultura, que para a sociedade em geral soa como arquetípica, risível, distante, inocente, infantil e que para a maioria das pessoas só serve pra de vez em quando vivenciarem uma fantasia adolescente, que nem essa geração de quarentões faz indo no show do Guns N Roses.
Quem ainda ama o futebol é tão tolo (e eu me incluo aí) quanto aquele cachorro do filme “Sempre ao seu lado”, que fica por anos indo até a estação de trem esperar o dono que nunca chega, já que ele morreu.
Sigamos indo aos estádios e curtindo nossas paixões, mas de verdade… o futebol está morto…]]>
Santo André e está com saudades do Estádio Bruno José Daniel, a banda Visitantes, lança um clip em homenagem ao dia-a-dia do torcedor, com a música “Mais um jogo no Brunão“.
Segue:
Pessoal, a 193ª camisa de futebol da nossa coleção vem do interior de São Paulo e pertence à Associação Athlética Avareense.
Como o próprio distintivo demonstra, a AA Avareense acaba de completar seu centenário (fundação em 5 de junho de 1920) em meio à pandemia do Coronavirus.
A camisa foi um presente da própria diretoria de futebol, quando estivemos em Avaré visitando o Estádio da Avareense. Veja aqui como foi essa visita!
O time nasceu da fusão do Avaré Atlético Clube e do Atlético Clube Avareense e passou a ser figura importante no futebol amador da região.
Aqui, o time dos anos 40, que foram bem animados pro time:
Em 1942, jogou a 5a região ao lado do Cerqueira César FC, Piramboia FC (Anhembi), AA Sãomanuelense e o EC Bandeirantes de São Manuel, além da AA Botucatuense, do Bandeirante FC (Botucatu) e da Ferroviária de Botucatu que se classificou para a sequência do Campeonato.
Em 1943, jogou a 5a região ao lado do Cerqueira César FC, CA Lençoense, AA Sãomanuelense e o EC Bandeirantes de São Manuel, AE Laranjalense, além da AA Botucatuense e da Ferroviária de Botucatu que se classificou para a sequência do Campeonato.
Em 1944, jogou a 5a região ao lado do Cerqueira César FC, CA Lençoense, AA Sãomanuelense e o EC Bandeirantes de São Manuel, além da Ferroviária de Botucatu, que se classificaria para a sequência do Campeonato.
Em 1945, disputou a 5a região, ao lado do CA Lençoense, AA Sãomanuelense e o EC Bandeirantes de São Manuel, além da Ferroviária de Botucatu e a AA Botucatuense, que se classificaria para a sequência do Campeonato.
Em 1946, disputou a 4a zona ao lado dos times de Botucatu: Bandeirantes, Ferroviária e a AA Botucatuense, que se classificaria para a sequência do Campeonato.
E se os anos 40 foram animados, os anos 50 viram a AA Avareense passar a disputar o futebol profissional pela primeira vez em 1954, quando jogou a série A3.
Os anos 60 ainda viriam outras cinco edições do Campeonato Paulista da Série A3 (1961, 1962, 1963, 1964 e 1965).
Atualmente, o departamento de futebol do clube se dedica apenas a competições amadoras.
Aqui, um vídeo com algumas entrevistas com figuras históricas do time:
Desde antes da 2ª guerra mundial estourar, os movimentos nacionalistas de extrema direita se espalhavam pela mundo como uma reação à crise global que vivíamos. Um cenário meio parecido com o que vivemos hoje…
Em 1925 os Fascistas Italianos desenvolveram uma ação para ampliar o alcance da ideologia de Mussolini: uma organização recreativa para os trabalhadores chamada Opera Nazionale Dopolavoro (OND), algo como “Obra Nacional depois do Trabalho”.
A OND supostamente buscava promover o desenvolvimento físico, intelectual e moral da população, nos horários após o trabalho.
Influenciada pela momento político do Brasil (lembremos que Vargas só se posicionou contra os nazistas muito próximo do início da 2ª guerra mundial), essa ideia atravessou o oceano e veio dar as caras aqui no Brasil, principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo. Assim, em 1938, a recém criada LFESP (Liga de Futebol do Estado de São Paulo) convidou o Opera Nazionale Dopolavoro de São Paulo para disputar a Divisão Intermediária, equivalente à série A2 do Campeonato Paulista. Para a disputa, foram obrigados a mudar seu nome para Orgnização Nacional Desportiva (mantendo a sigla OND).
Os fascistas brasileiros prometiam demonstrar suas proezas em campos paulistas, e assim, como dois times da nossa região também jogavam a divisão intermediária, Santo André (que na época fazia parte do município de São Bernardo, que englobava a área do que hoje é o grande ABC) receberia em campo o time dos fascistas.
Fico me perguntando qual foi a repercussão entre a torcida local, formada em boa parte por operários, muitos deles imigrantes italianos simpáticos ao anarquismo e comunismo, que fizeram história na região com as primeiras greves, já em 1906 (essa em específico, na tecelagem Ypiranguinha, num local próximo ao que seria anos mais tarde o Estádio do Corinthians de Santo André).
O ABC vivia uma grande mistura de ideologias, com crescimento do Partido Comunista Brasileiro, além da reorganização da União Operária fazer surgir um novo sindicato.
Enfim, chega o esperado domingo, 9 de outubro de 1938 a capa da página de esportes do Correio Paulistano destacava o primeiro embate:
Os fachos chegaram em Santo André para a disputa da partida contra o Primeiro de Maio FC.
O local da partida era o Mítico Estádio da Rua Brás Cubas, e como sempre acontecia, ele provavelmente estava apinhado de torcedores naquele dia. Será que algum torcedor visitante esteve presente?
Em campo, um nome de peso para a política e para o esporte de Santo André: o goleiro Bruno José Daniel (que anos depois daria nome ao Estádio Municipal).
Essa é uma imagem do campo naquela época, que mostra de fato como era forte a presença da torcida local:
Presente nas arquibancadas, os anarquistas e comunistas da região empurraram os “flechas verdes“, ao ataque.
O Primeiro de Maio não apenas jogou como se impôs diante dos fascistas que sequer esboçaram reação.
O caldeirão da Brás Cubas ferveu por quatro vezes, terminando com a vitória arrasadora por 4×1. Fico imaginando a cena e pensando se gritos de “Não passarão!!!” teriam vindo das arquibancadas.
Os fascistas deixaram a cidade com a cabeça quente, prometendo vingança…
Se não existia a possibilidade de um novo jogo contra o Primeiro de Maio, os fascistas prometiam descontar sua raiva contra outra equipe operária: o Corinthians FC, o “Galo Preto da Vila Alzira”.
A partida estava marcada para o dia 13 de novembro, no Estádio do Corinthians, e se o Primeiro de Maio já levava torcida, o “Corintinha” era ainda mais imponente.
Veja a imagens da arquibancada local na época, em um derbi contra o Primeiro de Maio (time perfilado):
O time que enfrentou a Organização Nacional Desportiva:
E mais uma vez, estampada nos jornais, o desafio entre operários do ABC e os fascistas:
E, nessa nova visita… Mais uma vitória fazendo a alegria dos operários anarquistas e comunistas de Santo André!
O Corinthians venceu por 2×1, no dia 13/11 contribuindo com que os fascistas desistissem de se aventurar no futebol profissional de São Paulo e deixando claro que nem no futebol nem na política havia espaço para esse tipo de pensamento. Mais uma vez o operariado do ABC deu uma mostra de como a política está presente em tudo o que fazemo.
Lá se vão 16 anos daquele 30 de junho de 2004… Um dia pra ser guardado eternamente nos corações e mentes de todos os torcedores do Ramalhão.
Preparamos dois presentes para essa data: um é este post, o outro é o clipe do Visitantes, que você vê em primeira mão:
Não sei quando foi que me dei conta de que o Santo André realmente estava na final da Copa do Brasil em 2004. Tantos desafios foram vencidos até ali, que eu já não sabia se aquilo tudo era apenas fruto da minha imaginação.
Pra me deixar ainda mais confuso, acordei numa quarta feira, onde normalmente trabalho, e, pasmem, estava prestes a ir ao Estádio Mário Filho, o “Maracanã” acompanhar a final in loco, eu que nunca havia assistido a um jogo sequer ali…
Como não conseguimos ir com a torcida, numa última tentativa, ligamos no clube e conseguimos vagas no ônibus que estava fretado pela diretoria do Santo André.
Ainda duvidando da realidade, era por volta das 10 horas quando o amigo Márcio (esse que a gente homenageia no clip do Visitantes), junto do seu irmão Matheus e de Anderson, o “Gigante” começou a buzinar em frente de casa.
Fomos em carreata fazendo um auê até o Jaçatuba, de onde sairia nosso ônibus.
Após uma espera angustiante, a viagem enfim começou, e com ela, os causos contados pelos companheiros de viagem, sendo que alguns eram diretores do clube e se divertiam revelando fatos dos bastidores, enquanto tocava o hino do Santo André.
Além do nosso veículo, ainda tinha um micro ônibus nos acompanhando levando outros amigos como o Luiz Henrique da Ramalhonautas (primeira torcida virtual do Ramalhão).
Por volta das 15:00hs, paramos num posto meia boca e fizemos uma boquinha.
O ônibus volta ao seu percurso, sentado atrás da gente estava um diretor financeiro do Santo André e pouco mais à frente o Wigand, antigo presidente do clube, uma verdadeira lenda!
Logo que chegamos ao estado do RJ, uma ótima notícia, nos encontraríamos com o time no hotel, e dali sairíamos juntos.
Adentramos na Serra das Araras e vejo o primeiro carro com bandeira do Flamengo. Começo a pensar que este será o jogo onde verei o maior número de torcedores rivais na minha vida… Não me abalo, estou confiante, e no fundo o placar em si, já nem me importa mais, quero só mostrar meu orgulho deste time, que acompanhamos há tanto tempo.
Estamos quase chegando na cidade do Rio de Janeiro. São 6 da tarde e percebo que pegaremos o horário do rush na Av. Brasil, o que nos atrasaria bastante.
Um dos organizadores nos informa que não iremos mais pro hotel, e sim direto pro estádio, mas que teríamos escolta da polícia assim que chegássemos na cidade.
O motorista parece meio doido, corta boa parte do transito, faz um caminho louco, entra e sai de quebrada. O rádio informa que o movimento já é grande ao redor do Maracanã, também, pudera, já era 19:25hs.
Após muitas voltas, caímos em uma grande avenida, já abarrotada de flamenguistas, onde podemos visualizar o Maracanã ao horizonte.
Devemos estar uns 4 km longe, e a nossa frente… aquele trânsito…. Tinha muita gente indo pro jogo, muita mesmo.
De repente, o micro ônibus que estava com a gente parou e começou a sair uma nuvem de fumaça enorme… Alguém gritou: “Pára motorista!! O ônibus deles ta pegando fogo!!!!!!”.
Só depois percebemos que, na verdade, o pneu dele havia caído dentro de um bueiro, e acabou socorrido pelos torcedores ramalhinos com a ajuda de alguns flamenguistas…
A situação estava um caos, o ônibus não havia andado 500 metros nos últimos 20 minutos, mas de repente, como uma miragem no deserto, aparece o ônibus da delegação, com a escolta!
Mas… Nosso motorista vacilou e perdeu a chance de chegarmos mais rápido.
Agora somos nós contra 70 mil rubro-negros espalhados pelas ruas do bairro, e dá lhe arrastões, bondes, provocações com a gente, e muito vermelho e preto….
Justiça seja feita, em momento algum nos colocaram em situação de risco real.
Era muita gente, e parecia que ninguém se movia, parecia um formigueiro humano…
Essa foto é incrível, veja a galera já reconhecendo a gente como torcida do Santo André: uns dão joia, outro arremessou um pedaço de gelo, e outros dois com as mãos à cabeça parecem se perguntar “O que esses loucos vieram fazer aqui???”:
Após mais de uma hora nesse inferno, chegamos em frente ao Maracanã, o massagista do time, que estava no nosso ônibus decidiu descer em meio à torcida deles pra não perder o jogo. Já era 20:40hs!
A foto não saiu “legível”, mas fiquei emocionado ao ver uma faixa que dizia algo como “A Torcida Banguense deseja sorte ao Santo André”.
Quando tudo parecia se acertar, o motorista fez merda de novo e perdemos o portão 13 que iria nos dar acesso aos nossos lugares…
A decisão mais acertada parece ser descer ali mesmo, em meio ao mar rubro negro. A galera começa a ficar nervosa… Alguns acham arriscado, mas o motorista se recuperou dos erros e dando uma ré no meio daquela loucura, o ônibus conseguiu entrar no estacionamento.
Descemos e a polícia chegou. Embora parecessem mais guardadores de carro do que policiais, e tivessem no máximo 20 anos, toparam nos guiar até as catracas passando pelo meio da torcida local.
Assim que retirei meu ingresso da catraca, já não havia mais nenhum policial conosco. A partir dali, era por nossa conta.
Subimos as escadarias do Maracanã com a galera cantando “Meeeengoooooooooo”… Era uma festa tão contagiante que até a gente tava cantando….
No momento em que chegamos no fim das escadarias, não acreditei no que via…
Pra quem gosta de futebol, não importa o time, aquela é uma visão maravilhosa: o Maracanã lotado, com muitas bandeiras, faixas, confetes, e tudo mais, além da vibração da galera…
Não haveriam lugares separados para os torcedores paulistas, e nos pusemos a contornar o anel da arquibancada, buscando algum lugar ao menos pra sentar (tava muito lotado… aquele empurra empurra, gente indo, vindo…).
Enquanto procurávamos um lugar falei pro meu pai “Hoje é histórico pra nós, mas é pra eles também…”.
Na mesma hora, o cara do meu lado virou pra mim e falou “Oh, tu é paulixxxta! Tu veio até aqui torcer pro Sant’André? Não vai querer gritar aqui hein…”.
Voltei à realidade… Estava em outro estado, no meio da maior torcida do país, indo torcer pro time contrário, e não podia sequer abrir a boca, que já me identificariam…
Encontramos uma seqüência de cadeiras vazias e sentamos. O pessoal do ônibus se separou e sentou por ali.
E não é que em meio aquela bagunça toda, alguns dos nossos torcedores começaram a gritar “É Santo André!!”… Virei pra conferir e estavam com as camisas do ramalhão, como se estivessem no Brunão, gritando. A torcida local começou a chiar, mas foi a loucura mesmo quando eles abriram uma faixa com uma mensagem pro Galvão. Voaram latas, sanduíches, chinelos e etc…
Quando o pior tava pra acontecer apareceu a polícia para tira-los de lá.
O policial os convenceu a irem pras arquibancadas junto da TUDA e da Fúria (que estavam no anel inferior, atrás do gol).
Assim que eles sairam um flamenguitsa veio e gritou: “Aê, aê, é tudo paulixxxta aqui ó, é tudo paulixxxta” e nos apontou…
Assim que sentamos os jogadores já saíram da pose da tradicional foto do campeão e foram para o campo, pro jogo começar.
O jogo rolava, e eu nem acompanhava direito de tantas coisas que tinham para ser obseravdas. Além disso, estava um jogo feio, truncado e quando eu comecei a querer assistir, alguém cutucou minhas costas, como que me chamando.
A princípio achei que fossem torcedores nossos, mas de repente ouvi a mesma pessoa me perguntar “Olha só, o Filipe é qual número?” Xi… fudeu… E era pra mim… Eu só tive tempo de responder num carioquês embrulhado “Ele é o déixxxx, mas jogava com a seixxxx”. Não deu certo… Ficaram me enchendo o saco dizendo pra não torcer ou eu teria que sair dali …
Lá embaixo a nossa galera se fazendo ouvir de tempos em tempos, mesmo com quase 80 mil torcedores gritando contra. A Fúria Andreense e a TUDA fizeram bonito aquela noite!
Assim que acabou o primeiro tempo, veio o meu inferno.
O local onde estávamos era tipo “cadeiras cobertas” e o que separa este setor dos outros é uma placa de um tipo de acrílico com quase 2 metros de altura. E os caras começaram a bater naquela placa e fazer um puta barulho, e gritar “Olha aqui tem paulixxxta”…
Meu pai tranquilizava dizendo “Calma, que o jogo vai recomeçar e eles te esquecem”.
Mas o 2o tempo começou e os caras não parar. Pra tentar me livrar disso, pensei em sentar junto com o Márcio, o Matheus e o Anderson… Pô, os caras são grandes, duvido que alguém vai vir nos encher o saco!
Comecei a subir e pude ver que a situação não estava boa pra nenhum andreense… Tinha cara abraçado à bandeira do flamengo tentando se disfarçar, outros, nem bem me viam e diziam baixinho, “Sai fora, que aqui eles já tão desconfiados”.
Quando cheguei no Márcio, vi que nem lugar pra sentar tinha… Eu me sentia uma batata quente, que ninguém queria segurar. Era melhor voltar ao meu lugar.
Voltei e pensei num plano “B”: sentar sozinho no meio da torcida deles pra me misturar. E foi o que eu fiz, assim que o Flamengo teve um lance de ataque, desci uns 10 degraus e sentei na única cadeira livre (claro, assim que sentei percebi porque estava disponível… a cadeira estava molhada…).
Estava em meio a uma criança e um homem de uns 40 anos. Pensei: “aqui eu to tranqüilo”. Meti minha toca (num calor de uns 35 graus), abaixei a cabeça e fiquei o mais encolhido possível.
Foi assim, e desse lugar que vi o sonho se concretizar. O Santo André fez 1×0.
O gol foi um soco no estômago na torcida rubro negra… Como não podia gritar pra comemorar, Márcio fez a primeira “selfie” dos anos 2000 pra registrar a alegria!
O tempo não passava direito, as coisas estavam cada vez mais tensas, e de repente… 2×0.
Pensei… “SOMOS CAMPEÕES!!!!!”, mas tudo o que pude dizer ao cara da cadeira ao lado foi “Que merrrrrda, hein merrrrmão”…
Só fui ter consciência do que acontecia após uma cobrança de falta do Flamengo que foi uns 3 metros acima da trave. Levantei a cabeça e vi que muita gente tinha gente indo embora.
Priiiiiiiiiiiiiiii!!! Ouvi o apito final do juiz. Já dava pra desabafar e chorar um pouco…
Reunimos boa parte do pessoal que veio conosco e gritamos “É Campeão” sendo aplaudidos por alguns torcedores do Flamengo.
Lá embaixo nossa torcida ia ao delírio!
O time passou a fazer a festa em campo!
Os diretores começaram a pular para as cadeiras da imprensa, e nós fomos atrás, até chegarmos em um túnel que levava à porta de acesso aos vestiários. Um a um, os diretores foram entrando até que na nossa hora, o segurança pediu nossas identificações e … Fomos barrados…
Tentei me lamentar com outro segurança que me deu a dica: “Entra naquela segunda porta, que você sai no campo”.
Tinha certeza que era alguma armadilha, afinal de onde estávamos víamos muitos torcedores do Flamengo deixando o estádio, sem nenhuma proteção entre eles e a gente. Mas, como era a única coisa a se fazer naquele momento, decidimos arriscar… Andamos um pouco e de repente, para nosso espanto…
Estávamos dentro do campo!!! Não consegui acreditar que entrávamos, sem qualquer impedimento no mais sagrado templo do futebol brasileiro.
Assim que entramos, os jogadores estavam rezando. Eu nem acreditava, e corri pra galera, pra tentar encontrar algum conhecido. Não conseguia enxergar direito e quase caí no fosso que separa a torcida do campo. Pude ver o Ovídio, o pessoal da Fúria, entre outros.
Quando voltei minhas atenções pro campo, vi o Márcio caído no gramado deitado e sorrindo.
Aproveitamos pra pegar no pé de vários jornalistas que nunca acreditaram em nós.
Depois, olho pro lado e vejo meu pai ajudando a carregar a taça pra dar a volta olímpica…
Tiramos fotos em tudo que foi lugar, no gol, no meio das entrevistas da jovem pan, no banco de reservas, na cadeira da globo…
Comemoramos com a torcida, como se fizéssemos parte do time. Olhava o Maracanã de dentro pra fora, pisava na mesma ponta de grama onde Garrincha fizera história, lembrei do filme do Pelé, e imaginei quantas jogadas aquele lugar não presenciou…
Era quase uma festa particular, exclusiva para umas poucas pessoas, nunca mais esqueceríamos o que vivemos naqueles momentos.
Pra acabar a noite, ainda fomos aos vestiários, conversamos com dirigentes, jogadores, tiramos fotos com o Chamusca, o Sérgio Soares, o Sandro Gaúcho, e até beijando a taça.
Meu pai agia como um jogador, bebia água, gatorade, deitava e relaxava nas cadeiras, só faltou tomar uma ducha e dar entrevistas.
Já era quase umas 2 da manhã, quando saímos por um portão lateral, e pra surpresa geral ainda havia alguns torcedores do flamengo, uns olhavam meio feio, outros queriam até trocar a camisa, mas nessa hora já não temíamos mais nada…
Subimos no ônibus, e cantamos até umas 3 ou 4 da manhã, quando paramos num posto. Após o posto, todos dormiram, satisfeitos, com o sabor de missão cumprida.
Só eu e meu pai ainda estávamos acordados (típico da nossa família), e chegamos praticamente destruídos de cansaço.
Era o fim de uma aventura e o início de uma nova era pra nós que acompanhamos o Santo André de perto há tanto tempo. Nada mais seria igual, nunca mais seríamos os mesmos. Só de olhar para o ingresso dá vontade de chorar…
O fim da história (se é que a história tem fim) nos levou da extrema felicidade à tristeza sem fim, quando o amigo Márcio, 7 meses depois faleceu em um acidente de moto, deixando as lembranças desse jogo como uma festa de despedida de uma amizade que tínhamos desde criança.
Esse post e o clipe são uma homenagem e lembrança ao nosso Ramalhão, mas sem dúvida, também é uma homenagem e lembrança a ele.
Há algum tempo que eu vi a chamada dessa série, mas estava com medo de ser aquela coisa muito estereotipada… Mas, como a quarentena oferece um pouco mais de tempo pra se dedicar, decidi dar uma chance e não me arrependo!
A surpresa foi positiva! Um bom painel histórico sobre o fim do século XIX, e como o futebol surge, ainda amador, no dia a dia das pessoas, sejam elas aristocratas burgueses, donos das indústrias ou operários da periferia inglesa, que viam no esporte uma das poucas alegrias da sua vida.
São apenas 6 episódios que contam muito mais do que a história do jogo… O “heroi” local é o escocês Fergus Suter, que se transfere para jogar na Inglaterra, pelo time operário do Darwen.
O Darwen é o primeiro clube de operários a chegar nas quartas de final e acaba desclassificado num jogo bem desleal. Mas… o futuro de Fergus guarda surpresas…
Mas mais do que jogar a Copa da Inglaterra ele se envolve no dia a dia dos operários, nas greves e dificuldades enfrentadas… E como os times do norte passaram a se unir e a se identificar para vencer os times dos “almofadinhas”.
Enfim, sei que nem todo mundo tem acesso à Netflix, mas aquele que por acaso o tenha, não faça como eu, não postergue, comece a assistir hoje mesmo!
Veja aí o trailer:
Dando sequência aos estádios do ABC, vamos falar do extinto Estádio do Primeiro de Maio FC (já falamos sobre o time, clique aqui pra ler), também conhecido como o Estádio da Rua Brás Cubas, na cidade de Santo André.
Lembrando que o futebol do ABC tem outros times, estádios e histórias, caso queira conhecer mais, veja aqui o Mapa do Futebol no ABC, desenhado pelo Victor Nadal. Pra falarmos do histórico Estádio da Rua Brás Cubas é preciso voltar à Santo André dos anos 20… Quando pouca coisa havia ali no centro ao redor do campo…
E pra isso, vamos contar com a ajuda do Grupo Santo André Ontem e Hoje, relembrando alguns visuais daquela época, como a “Venda da Menotta Domenica DellAntonia“, mãe de Pedro DellAntonia.
Outro importante ponto da época era Fabrica Kowarick, onde hoje fica o Assaí atacadista, ali ao lado da Estação Ferroviária.
Aquele era um tempo de grandes esperanças. Tudo era novo, o futuro estava a ser escrito e se as indústrias começaram a se tornar a principal característica da região. Logo, os operários encontraram no futebol uma das formas preferidas de diversão e a cidade de Santo André via surgir grandes times, entre eles o Primeiro de Maio FC. Para quem se interessar, vale a leitura do livro “História do Futebol em Santo André” (clique aqui e compre na Estante Virtual):
E em 1º de maio de 1923, o Primeiro de Maio FC inaugurava o seu estádio, na Rua Brás Cubas, a poucos passos de onde hoje está a Catedral do Carmo, na época ainda em construção.
Para a inauguração, foi convidado o time do Paulistano, que na época era um baita time e foi muito legal em topar vir inaugurar o Estádio. Podiam ter pego mais leve no campo…. Venceram o jogo por sonoros 5×2. Essa é a foto do dia do jogo, do dois times juntos:
As poucas fotos que consegui resgatar do Estádio da Rua Brás Cubas vem do livro do Ademir Medici e mostram ao fundo um centro de Santo André ainda bem diferente do que conhecemos atualmente.
Poucas casas, no máximo uns sobrados. Os prédios ainda demorariam décadas até chegar a nossa cidade.
No siteMeu Timão (dedicado ao Corinthians) encontrei o registro de um amistoso disputado ali em 1926:
A foto abaixo, de 1939, quando foi disputada uma partida em apoio às vítimas do terremoto no Chile.
Além de ser usado pelo time principal, o campo também era usado em outros momentos pelos sócios do clube.
O Primeiro de Maio FC não só fez história no futebol como viu a história da nossa cidade acabar com a natureza e também com o seu campo. O centro ficou muito “urbano” para conter um estádio, e o futebol acabou deixando de ser uma prioridade para o clube.
Mas a sede do Primeiro de Maio FC segue no centro da cidade, e pelo menos mantém na memória imagens como essas, que nunca…. nunca mais voltarão…
Enfim, num domingo, em 9 de junho de 1940, o Primeiro de Maio FC fez sua estreia no Campeonato Intermediário da Liga de Futebol do Estado de São Paulo, contra o time do Tramway da Cantareira FC (o “Estrada de FerroCantareira“).
O placar foi de festa! 5×2 para o Primeiro de Maio FC, para a festa da torcida, mas… Aquele ficaria marcado como o última ano do time no Estádio da Rua Brás Cubas… 17 anos de história que tiveram que dar lugar à expansão da cidade. Ainda em 1940, em abril, já com a notícia certa da perda da área do estádio, o time recebeu o São Paulo e levou uma goleada de 8×0… Mas para não terminar a história no Estádio da Rua Brás Cubas de forma melancólica, o juvenil do Primeiro de Maio FC recebeu, em outubro, o Juventus da Mooca e deixou um 10×1 de presente. O campeonato daquele ano terminaria seria jogado no Estádio do Corinthians de Santo André.
Pessoal, mais uma obra importante para os estudiosos da história, memória e dados do futebol.
Trata-se do livro “História do Campeonato Baiano 1905 – 2019“, do Júlio Bovi Diogo.
O livro possui 250 páginas, realizado no formato A5 e conta com a lista de participantes, os resultados de todos os jogos e a classificação de cada campeonato, desde 1906.
Tudo isso foi pesquisado com muito carinho e esforço pelo Júlio, um trabalho incrível que merece todo o reconhecimento daqueles que se envolvem com o futebol.